1ª Parte
Traição.
“Não é nada disso que você está pensando! Eu posso explicar!”
Com certeza essa é a frase mais idiota que alguém pode dizer. Principalmente pra mim, que sou uma aquariana com ascendente em virgem, detalhista e observadora. Consigo perceber um olhar a léguas de distância, poucas palavras são suficientes para que eu entenda qualquer coisa.
Mas, para algumas situações, não é preciso inteligência, ver minha namorada aos beijos com outra garota, e ainda dizer que “não era nada daquilo que eu estava pensando” era o fim, realmente ela estava subestimando minha capacidade de percepção.
Eu não conseguia esquecer aquela frase. Apesar de sentir-me magoada com a traição, tinha muita sorte por não estar completamente apaixonada por aquela mulher, estávamos juntas há menos de quatros meses e ela já enfeitava minha cabeça, confesso que gostava muito da morena, e que, às vezes sentia saudades dos nossos finais de semana juntas.
- Não estou pensando nada, não é preciso pensar, eu estou vendo você agarrada com essa garota. Vai se arrepender por isso, e ainda vai me implorar por perdão!
Foi só o que consegui dizer naquela noite, no meio da rua, Jenifer dentro do carro, aos beijos com outra mulher, eu caminhei lentamente de volta para casa, minha casa agora vazia, os olhos úmidos, o orgulho ferido e o coração arrasado.
A raiva fez-me apagar todos os vestígios de Jenifer pela casa. Juntei tudo, fotos, cartas, presentes, a agenda de ano novo, uma blusinha preta, o anel... Coloquei tudo numa caixa de sapatos e entreguei a ela, no dia seguinte. Ela fitou-me com olhar de reprovação, mas nada disse. Apenas ficou sentada, olhando para a caixa.
Dureza era ter que vê-la todos os dias na repartição, nos primeiros dias, não nos falávamos, ela com ar de medo, eu com raiva, passava num rompante danado, cumprimentava todos, com um “Bom Dia” pra lá de sorridente, mas fazia questão de ignorar sua ausência.
Sempre que eu a fitava, ela estava me espiando sorrateiramente. Duas semanas depois, a morena começou a me cumprimentar, eu apenas respondia um “Oi” frio, demonstrando desinteresse.
Com o passar do tempo, voltamos a nos falar, coisas sem importância, frases curtas, afinal trabalhávamos juntas, e éramos obrigadas a manter uma certa relação, por mais indiferente que fosse.
Certa tarde, ficamos sozinha na repartição, a morena sentou ao meu lado, baixou a cabeça e ficou quieta, como uma criança que faz arte e se arrepende.
- Aconteceu alguma coisa Jenifer? Perguntei.
- Me perdoa, por favor? Suplicou baixinho.
Em silencio, desliguei o computador, arrumei minha bolsa, peguei a chave do carro e olhei bem séria em seus olhos dizendo:
- Posso até perdoá-la, mas e daí? Como vou poder confiar em você novamente? Quem garante que não vai fazer de novo?
- Me perdoa? Eu te amo! Respondeu a morena.
- E quando foi que descobriu que me amava? Quando me perdeu? Perguntei num tom bravo.
- Eu sei que errei, mereço perder seu amor, mas, por favor, não me prive da sua amizade.
- Tudo bem Jenifer, podemos ser amigas daqui por diante. Levantei e segui em direção a porta completando: - Até segunda-feira, tenha um bom final de semana.
Neste instante a morena correu até mim, segurou em meu braço, eu a fitei profundamente, ainda sentia saudades daquelas mãos, daquele perfume, daquela voz rouca. Tive vontade de beijá-la, de me aninhar em seus cabelos...
- Podemos sair hoje à noite? Pra conversar? Perguntou.
- Não vai dar, desculpe, é que eu vou viajar hoje à noite, só volto no Domingo. Outro dia... Quem sabe...
- Você está saindo com alguém? Perguntou meio assustada.
- Vou para a casa de meus pais. Respondi e sai sem olhar para trás.
Fui visitar minha família no litoral, passei o final de semana pensando na conversa que tive com Jenifer, tentava desvencilhar os pensamentos naquela morena, mas era impossível. Fiz o que pude, peguei onda, passeei, fiz trilha de moto com minhas primas, mas nada me fazia esquecer aquela conversa. Pensava se realmente Jenifer estava arrependida. Ou era só charme, tentando me seduzir novamente para depois dar o bote.
Na Segunda ela chegou ao trabalho radiante, filha da mãe, vestida pra matar, e que perfume.
Cumprimentava todo mundo com um sorriso faceiro, parecia muito alegre, eu com a pulga atrás da orelha pus-me a pensar, era muita felicidade, pra uma garota que três dias atrás estava de cabeça baixa pedindo perdão com carinha triste, de bebe querendo colo.
Mergulhada em meus pensamentos, nem percebi quando ela chegou em meu ouvido, com a voz mais gostosa do mundo, dando-me um susto e dizendo:
- Será que hoje à noite você está disponível pra uma conversa mais amistosa?
Senti meu corpo ferver, podia sentir o calor daquele corpo moreno cheio de volúpia suplicando por meu toque.
- Hoje à noite... É... Acho que sim. Respondi com a voz embargada e a cabeça confusa.
- Pode ser as nove? Eu te encontro no barzinho, perto de casa. Disse.
- Tudo bem, as nove. Respondi.
Eu não podia acreditar que estava deixando-me levar por seus encantos. Caracas! Ela traiu-me! E ainda por cima subestimou minha inteligência. “Não é nada disso que você está pensando! Eu posso explicar!” Essa frase voltou a latejar minha cabeça. Eu só posso estar maluca. E meu orgulho, meu ego? Tinha que dar um jeito de reverter toda aquela situação. Não poderia deixar o controle nas mãos dela, de forma alguma, eu tinha que dar as cartas, mostrar pra ela quem mandava, tinha que fazer alguma coisa, mas o que? O que?
Um misto de raiva, mágoa, desejo e ansiedade tomaram conta de mim. Tinha que pensar em algo e virar o jogo. Mal pude trabalhar durante o dia que insistia em não terminar, procurei ser fria ao máximo com ela, sempre que perguntava alguma coisa eu limitava-me em “sim, não”.
No fundo estava gostando daquele joguinho. Mas a bandida provocava-me, insinuava-se, coçava as pernas e deixava-a a mostra. Passava a mão na nuca, fingindo estar com calor... E assim foi, o dia inteiro, eu tentando mostrar indiferença e ela, linda, provocando meus instintos.
Depois de uma eternidade, chegou a tão esperada “nove horas”, tomei um banho quentinho, tentando acalmar a ansiedade, relaxar e retomar a firmeza.
Quando cheguei ao bar, lá estava ela, desesperadamente linda, maravilhosa, gostosa, com os cabelos soltos, um vestido creme que acentuava ainda mais sua cintura e seu bronzeado, rodando uma chave nas mãos. Olhava para tudo quanto é lado, eu ri baixinho, percebendo seu nervosismo, cheguei bem perto e disse olá.
Ela retribui com um sorriso magnífico, daqueles que faz uma mulher perder o controle, bem, na verdade sempre que estava ao lado dela eu achava que ia perder o controle.
(Continua)